Da Argentina ao México: Como a América Latina está respondendo à crise do novo coronavírus

Da Argentina ao México: Como a América Latina está respondendo à crise do novo coronavírus

maio 2, 2020 Off Por JJ

por Tomas Arias*

A pandemia do novo coronavírus chegou aos países da região em março de 2020. Embora cada caso apresente sua particularidade, é delineado um panorama regional com características específicas e que compõem a realidade latino-americana.

Com que rapidez ou lentidão cada país respondeu?
A primeira coisa que se observa tem a ver com a resposta inicial que cada Estado teve, adotando a categorização feita em análises anteriores, realizada de acordo com o número de casos que cada país teve ao lançar uma medida de isolamento.

Nesse sentido, Argentina e Peru foram os primeiros casos de resposta, sendo os primeiros na região a responder com medidas obrigatórias de isolamento social:
• Argentina: o presidente Alberto Fernández ditou o isolamento social, preventivo e obrigatório de 20 de março a 13 de abril. No momento do anúncio, o país tinha 31 casos confirmados.
• Peru: o presidente Manuel Vizcarra declarou estado de emergência até 12 de abril. No momento do anúncio, o país tinha 71 casos confirmados.

No que diz respeito aos que responderam a tempo, esta categoria inclui a maioria dos casos:
• Colômbia: o presidente Iván Duque declarou isolamento social, preventivo e obrigatório de 24 de março a 27 de abril. No momento do anúncio, a Colômbia tinha 277 casos confirmados.
• Chile: o presidente Sebastián Piñera declarou estado de emergência constitucional em 18 de março, e estabeleceu de um toque de recolher em horários predeterminados. No momento da declaração da medida, o Chile tinha 238 casos confirmados.
• Finalmente, o México é o país que, sem dúvida, pode ser classificado como parte de uma resposta tardia. No entanto, ao longo dos dias – e principalmente por causa do efeito devastador que o coronavírus estava gerando nos Estados Unidos, o governo mexicano decretou medidas, como a suspensão das atividades escolares, a reprogramação ou suspensão de reuniões e eventos que levariam a aglomerações e a suspensão atividades de trabalho não essenciais em certos ramos e áreas do setor público e privado, além de um pacote de medidas econômicas.

Como foi a resposta financeira inicial e quanto ela mudou com o tempo?
Inicialmente, os países anunciaram, além das medidas de isolamento ou distanciamento social, as medidas econômicas. Exceto no caso colombiano, foi anunciada uma quantia em dinheiro que iria ser direcionada para enfrentar essa pandemia. Nesse sentido, os valores monetários propostos em cada caso foram:

• Argentina: 640 bilhões de pesos argentinos, identificados como 2% do PIB
• México: 3 bilhões de pesos mexicanos
• Peru: USD 26,4 bilhões, o equivalente a 12% do PIB
• Chile: USD 11,75 bilhões, representando 4,7% do PIB
• Colômbia: no início, não foi anunciado um valor inicial destinado a combater a pandemia

Com o tempo, esses valores foram atualizados e ampliados por meio de novas medidas emitidas pelo governo central e outras instituições.

Prova disso é o caso argentino, em que, com a geração de novas medidas destinadas a revitalizar a economia e proteger os mais vulneráveis, a porcentagem do PIB destinada à luta contra a pandemia passou de 2% para 3%. Algumas das medidas tomadas pelo governo foram: a extensão do programa ATP, que providenciam empréstimos à taxa 0% para informais e autônomos, um salário complementar para os trabalhadores em relação à dependência do setor privado (50% pelo Estado), bem como um sistema abrangente de benefícios de desemprego.

Na Colômbia, o governo anunciou a alocação de recursos adicionais de 1,7 trilhão de pesos colombianos para fornecer apoio econômico aos hospitais do país.

Nesse sentido, é importante entender que os planos de ação de cada país estão sendo modificados e ampliados dia a dia à medida que a pandemia avança na região e em meio às necessidades de proteção.

Para melhor visualização da tabela, clique aqui.

Como se encontra cada país hoje
A situação atual enfrentada por esses governos latino-americanos pode ser definida como uma pressão tripla, porque hoje, e de maneira geral, são identificadas três frentes onde é necessário fornecer respostas:

1. A frente de saúde, na que conjuntos de medidas servem para proteger a população;
2. A frente econômica, referindo-se à grande agitação e à considerável incerteza que a pandemia abre nos setores produtivos de cada país
3. A frente social, onde existe um risco latente. Ante uma resposta ineficaz dos governos, o elo já questionado com a sociedade é corroído, especialmente em casos como de Chile e Colômbia.

Nesse contexto, supõe-se que, como mencionado em análises anteriores, a América Latina apresente um grande déficit em termos de gestão da saúde do Estado e, além disso, seja caracterizada por possuir fragilidade macroeconômica e forte presença do conceito de informalidade, vinculado tanto à economia em termos gerais quanto ao trabalho informal em particular. Isso, somado a uma inserção produtiva internacional de caráter extrativista, ou seja, ligada à exploração de mercadorias, gera um panorama que, diante de uma crise econômica como a do pós-coronavírus, não parece nada favorável à região.

Nesse contexto, observa-se o que foi dito em 20 de abril pelo Banco Mundial, que prevê que a região da América Latina e do Caribe contrairá 4,6% em 2020, como pode ser corroborado na tabela a seguir.


Fonte: Banco Mundial

Essa tabela também mostra como, apesar do cenário regional decepcionante, há Estados, como Argentina e México, que serão mais afetados do que a média em 2020, com uma contração de 5,2% e 6%, respectivamente.

Nesse contexto, deve-se observar a excepcionalidade do caso argentino, que, além de enfrentar o coronavírus, traz outra questão pendente que, ao mesmo tempo, limita sua capacidade de responder economicamente à pandemia, a saber, a reestruturação de sua dívida pública externa, diante do qual o país apresentou sua proposta aos credores nos últimos dias e está em período de negociação.

Embora a princípio fosse uma generalidade da região o clima nacional de união, a alta cooperação e as baixas críticas, a verdade é que, dia após dia, em cada país, os diferentes atores nacionais começam a acordar e as disputas políticas, sociais e econômicas recuperam força.

Um exemplo disso é o caso chileno, onde segue presente a tensão social que se produziu no último trimestre de 2019 e que levou a questionamentos do atual sistema político e econômico. Nesse sentido, é importante lembrar que, em um cenário em que o plebiscito por uma nova Constituição é latente (remarcado para 25 de outubro), as divergências entre os diferentes setores políticos começam a ressurgir. Um exemplo é o debate que está ocorrendo atualmente entre Chile Vamos, coalizão do governo, e a oposição, onde o medo da oposição de parecer “pouco construtiva” em meio a uma crise de saúde e econômica é misto, versus a convicção de que o Executivo está errando o caminho para chegar a um “novo normal”.

Outro caso é o do México, onde o presidente Andrés Manuel López Obrador é criticado por vários setores nacionais pela natureza limitada de suas medidas sociais, pela falta de clareza em relação a quanto dinheiro e qual porcentagem do PIB será alocada ao coronavírus, e sobre os fundos que estão sendo usados no momento. Por exemplo, o líder nacional do Partido da Revolução Democrática (PRD), Ángel Ávila Romero, descreveu como “preocupante” o fato de o governo usar as economias do Fundo de Renda para Estabilização do Orçamento.

O debate político como um debate transversal a todos os países
Em análises anteriores, foi apontada a existência de uma continuidade na estratégia adotada pelos presidentes, transversal a todos os casos, e que tem a ver com a forte ênfase no presidencialismo, apostando em respostas efetivas que garantam segurança para a população.

No entanto, debates recuperam força na opinião pública da região, principalmente em conexão ao custo e ineficiência da “política” na América Latina.

Nesse debate, encontramos diversas respostas nos casos analisados, desde uma posição como a do presidente argentino Alberto Fernández – que negou a possibilidade de reduzir o salário de seus ministros e tratou o debate como uma “expressão populista que incentiva a antipolítica”- até respostas como a do presidente mexicano, que recentemente anunciou um plano de corte e austeridade, que de alguma forma responderia às críticas recebidas pela classe política.

Além das respostas conjunturais que a política pode dar a esse debate, a resposta mais eficaz que os governos podem dar é usar o coronavírus como oportunidade para reivindicar a política em geral e ação do governo em particular, por meio de boa gestão e ações para proteger seus cidadãos.

Nesse sentido, na tabela a seguir, fornecida pelo estudo realizado pela consultora Mitofsky, pode-se observar que nos casos em que a pandemia foi tratada precocemente e com forte compromisso estatal, como na Argentina e no Peru, houve uma melhora na imagem dos presidentes.

Essa tabela também mostra como, apesar do cenário regional decepcionante, há Estados, como Argentina e México, que serão mais afetados do que a média em 2020, com uma contração de 5,2% e 6%, respectivamente.

Nesse contexto, deve-se observar a excepcionalidade do caso argentino, que, além de enfrentar o coronavírus, traz outra questão pendente que, ao mesmo tempo, limita sua capacidade de responder economicamente à pandemia, a saber, a reestruturação de sua dívida pública externa, diante do qual o país apresentou sua proposta aos credores nos últimos dias e está em período de negociação.

Embora a princípio fosse uma generalidade da região o clima nacional de união, a alta cooperação e as baixas críticas, a verdade é que, dia após dia, em cada país, os diferentes atores nacionais começam a acordar e as disputas políticas, sociais e econômicas recuperam força.

Um exemplo disso é o caso chileno, onde segue presente a tensão social que se produziu no último trimestre de 2019 e que levou a questionamentos do atual sistema político e econômico. Nesse sentido, é importante lembrar que, em um cenário em que o plebiscito por uma nova Constituição é latente (remarcado para 25 de outubro), as divergências entre os diferentes setores políticos começam a ressurgir. Um exemplo é o debate que está ocorrendo atualmente entre Chile Vamos, coalizão do governo, e a oposição, onde o medo da oposição de parecer “pouco construtiva” em meio a uma crise de saúde e econômica é misto, versus a convicção de que o Executivo está errando o caminho para chegar a um “novo normal”.

Outro caso é o do México, onde o presidente Andrés Manuel López Obrador é criticado por vários setores nacionais pela natureza limitada de suas medidas sociais, pela falta de clareza em relação a quanto dinheiro e qual porcentagem do PIB será alocada ao coronavírus, e sobre os fundos que estão sendo usados no momento. Por exemplo, o líder nacional do Partido da Revolução Democrática (PRD), Ángel Ávila Romero, descreveu como “preocupante” o fato de o governo usar as economias do Fundo de Renda para Estabilização do Orçamento.

O debate político como um debate transversal a todos os países
Em análises anteriores, foi apontada a existência de uma continuidade na estratégia adotada pelos presidentes, transversal a todos os casos, e que tem a ver com a forte ênfase no presidencialismo, apostando em respostas efetivas que garantam segurança para a população.

No entanto, debates recuperam força na opinião pública da região, principalmente em conexão ao custo e ineficiência da “política” na América Latina.

Nesse debate, encontramos diversas respostas nos casos analisados, desde uma posição como a do presidente argentino Alberto Fernández – que negou a possibilidade de reduzir o salário de seus ministros e tratou o debate como uma “expressão populista que incentiva a antipolítica”- até respostas como a do presidente mexicano, que recentemente anunciou um plano de corte e austeridade, que de alguma forma responderia às críticas recebidas pela classe política.

Além das respostas conjunturais que a política pode dar a esse debate, a resposta mais eficaz que os governos podem dar é usar o coronavírus como oportunidade para reivindicar a política em geral e ação do governo em particular, por meio de boa gestão e ações para proteger seus cidadãos.

Nesse sentido, na tabela a seguir, fornecida pelo estudo realizado pela consultora Mitofsky, pode-se observar que nos casos em que a pandemia foi tratada precocemente e com forte compromisso estatal, como na Argentina e no Peru, houve uma melhora na imagem dos presidentes.


Fonte: Mitofsky

Isso mostra que a maneira pela qual os diferentes governos abordam a pandemia tem um impacto direto na imagem de sua gestão. Esse panorama se torna ainda mais relevante se considerarmos que 2021 será um ano eleitoral em países como México e Argentina, que terão eleições parlamentares, e em casos como Peru e Chile, onde serão realizadas eleições presidenciais. No caso da Colômbia, as eleições presidenciais serão em 2022. Como cada país sai do coronavírus, sem dúvida, marcará o futuro das eleições.

* Tomas Arias é analista político para América Latina pela XP Investimentos